O caso Monteiro Lobato: por uma outra literatura infanto-juvenil brasileira

Escritor é salvo novamente, dessa vez com uma reedição de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, na qual são suprimidas as falas racistas

Em algumas rodas de escritores corre a anedota, dizem, de que existe um purgatório para as obras que caem em desuso e esquecimento editorial no país, e que Monteiro Lobato está sempre na boca do guichê quando alguém o salva com mais um novo projeto a partir da coleção de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, então ele volta ao rabo da fila e fica mais algumas décadas marinando, não sem desconforto, o aguardo do próprio ostracismo.

Na última década, Monteiro Lobato viu autores e autoras negras, que estavam no purgatório, ressurgirem na vida literária brasileira, Maria Firmina dos Reis, o próprio Lima Barreto que ele mesmo editou nas primeiras décadas do século XX, Carolina Maria de Jesus, Dalcídio Jurandir, Lélia Gonzalez, dentre outros, e se assustou: como pode ser possível que esses, ainda poucos, negros sejam encorajadamente divulgados no contexto literário brasileiro? O que estará acontecendo no Brasil contemporâneo?

A campainha toca, Lobato é salvo novamente, dessa vez com uma reedição d’O Sítio na qual são suprimidas as falas racistas, Emília por exemplo nunca mais dirá que Tia Nastácia é negra por dentro mas branca fora, nunca mais dirá que é uma preta beiçuda ou até mesmo que lhe falta inteligência por causa da cor da pele.

Foi-se a violência racial contra Nastácia, mas por tabela, foi-se também Emília, afinal, o comportamento mais elogiado da boneca-gente é o que os críticos chamaram e chamam até hoje de atrevimento. Ora, esse atrevimento pode ser detectado através de suas ações preenchidas de ousadia e de suas palavras duras para com aqueles que preconizem alguma ordem de advertência ou de interdição aos seus desejos.

Nastácia, junto a Dona Benta, sua patroa, a quem a empregada alegremente chama de “Sinhá”, sugerem a organização cotidiana e os pilares da educação e do bem-estar das crianças no Sítio, são a gota de realidade em contraste à presença de sacis, da cuca e das mitologias clássicas, universo onde Emília reina absoluta. O que chama a atenção é o fato de que no questionamento da realidade Nastácia é alvo da conduta racista de Emília e não de sua atitude transgressora como gesto de modificação, aliás, talvez para Emília, Nastácia e os demais pretos do Sítio sejam os únicos elementos que devam permanecer na mesma posição, uma vez que são os sustentáculos materiais das aventuras possíveis dos netos da Sinhá que vêm da capital para curtir as férias maravilhosas propiciadas somente pelo cenário fantástico da zona rural.

 

CRÉDITOS: https://operamundi.uol.com.br/cronica/68260/o-caso-monteiro-lobato-por-uma-outra-literatura-infanto-juvenil-brasileira

Lobato: uma discussão infindável, porém necessária

O editorial “O racismo de Lobato“, publicado nesta Folha em 27 de dezembro último, afirma que a discussão sobre a presença de racismo na obra de Monteiro Lobato é infindável —e concordo. Quem quiser ver racismo nos seus livros pode sempre os encontrar.

Mas discordo absolutamente da conclusão de que a obra deva ser esquecida. Monteiro Lobato é o pai da literatura brasileira infantil, além de ser uma das mais importantes figuras históricas nacionais.

Seus livros infantis estão no imaginário e no emocional deste país há mais de 60 anos. Os benefícios de se ler Lobato, hoje em dia, continuam enormes. A leitura de Lobato gera crianças com imaginação fértil, que passam a ser amantes da leitura, atuantes, contestadoras e com pensamento crítico. Lobato abre as portas de possibilidades infinitas em nossas vidas.

Monteiro Lobato
Monteiro Lobato

Não desejo simplesmente “ajustar a obra para nenhum ideal político”, como diz o editorial, mas sim absolutamente influenciar positivamente o pensamento das próximas gerações de leitores pelos próximos cem anos, assim como meu bisavô fez com as gerações passadas.

Também concordo quando o editorial afirma que não se deve simplesmente apagar os trechos problemáticos de uma obra e sim usá-los para iniciar discussões de temas atuais. Por isso, junto com a minha editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, decidimos colocar um prefácio explicativo dirigido aos pais e educadores convidando-os a fazer exatamente isso —além de, ao final do livro, um glossário sobre as alterações feitas e as definições dos termos em desuso.

Novas edições de Monteiro Lobato
Novas edições de Monteiro Lobato

Os livros do meu bisavô, com sua revisão final de 1947, continuarão à venda pela Globo, editora autorizada pela família, desde 2007, a publicá-los. Em 2019, a obra do escritor caiu em domínio público e qualquer editora pode, desde então, publicá-la, alterando-a com notas explicativas, como já foi feito diversas vezes.

E agora, com a minha nova adaptação em português e a tradução para o inglês, os pais têm também a opção de lerem para seus filhos livros onde Tia Nastácia é tratada como todos os outros personagens, com respeito e dignidade. Essa mudança é claramente presente nas ilustrações de Rafael Sam, ilustrador recifense, a quem eu pedi para criar a Tia Nastácia do jeitinho que ele gostaria de mostrá-la para seus filhos.

FONTE: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/01/lobato-uma-discussao-infindavel-porem-necessaria.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

MONTEIRO LOBATO DA MINHA INFÂNCIA Cresci sentindo imensa compaixão por Tia Nastácia

Apolêmica obra de Monteiro Lobato voltou ao debate público porque sua bisneta acaba de lançar uma adaptação de Narizinho Arrebitado, uma das onze histórias que integram o livro Reinações de Narizinho. A iniciativa atualiza as ilustrações originais, dando à trama uma identidade visual mais próxima ao nosso tempo. Tia Nastácia, por exemplo, deixa seu habitual figurino para ser representada de turbante, bata e colar de búzios pelos traços de Rafael Sam. O principal motivo da adaptação de Cleo Monteiro Lobato é fazer com que seu bisavô seja descoberto pelos mais jovens. Para tanto, ela suprimiu da versão anterior trechos que hoje soam racistas. Assim, a frase “a boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira” virou apenas “Nastácia deu uma risada gostosa”.

O racismo nas obras de Lobato tem sido alvo de intensa discussão nos últimos anos e atingiu seu ápice com o parecer técnico de 2010, do Conselho Nacional de Educação, sobre outro livro do escritor, Caçadas de Pedrinho. O documento recomendava a sua utilização em sala de aula apenas “quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”, de modo a acolher os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, em especial os negros.

FONTE: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/monteiro-lobato-da-minha-infancia/

Narizinho e Emília e Seus Ilustradores Originais

Na última mesa-redonda do terceiro dia do evento “100 Anos de Narizinho”, no dia 6/12, Cleo Monteiro Lobato recebeu a curadora Mari Salmonson e o ilustrador Magno Silveira para falar sobre a revolução estética de Narizinho e Emília, personagens lobatianas, nas ilustrações de 1920 a 1947.

O artista convidado é responsável por uma das exposições do evento, que reúne em uma linha do tempo ilustrações de capas dos livros de Lobato. No bate-papo, ele trouxe uma compilação de capas em linha do tempo, observando características em cada uma delas e comentando suas diferentes particularidades nas representações.

Na reprodução de uma cena de Narizinho em um sonho de um baile, por exemplo, em ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’, para o ilustrador, Voltolino, que deu um aspecto mais adulto à menina, quis realmente representá-la como ela se via no sonho.

Ele destacou também o aspecto de ‘bruxa’ dado à Emília pelo artista e ressaltou ‘aspectos técnicos no visual gráfico de uma arte de Voltolino em 1922, com Pedrinho, Visconde e Narizinho.

As cores, concepções e o aspecto dos traços também foram observados por Magno em desenhos criados por nomes como Kurt Wiese, Nino, Rodolpho, Rafael De Lamo, Jean Villin, Belmonte, Augustus, André Le Blanc e J.U. Campos, avô de Cleo.

O convidado afirmou que para ele Jean Villin, o primeiro ilustrador de “Reinações de Narizinho”, é “o grande ilustrador” de Lobato, exemplificando com a riqueza de detalhes e elementos da narrativa nos desenhos feitos em 1931.

Ao final do encontro, Magno mostrou para Cleo ilustrações de J.U. Campos que não integraram edições de obras do Lobato, revelando curiosidades que ele descobriu através de Joyce, sua filha.Para terminar, Mari reuniu comentários feitos por espectadores, que foram repercutidos pelo trio.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=5xsPVsQS6io&list=PLTSOlBY3k3FW3yt4T-EL0t9Y7ajVlutYt&index=4

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Fantasia e Realidade Sem Fronteiras e um Novo Olhar Para a Infância

Na segunda mesa do último dia do evento “100 Anos de Narizinho”, no dia 6/12, Cleo Monteiro Lobato e a doutora em Educação Sônia Travassos, curadora do encontro, receberam os escritores e especialistas em Lobato Pedro Bandeira, Eliana Yunes, Luciana Sandroni e Antonella Catinari para um bate-papo sobre a fantasia e a realidade sem fronteiras na obra Lobatiana e uma discussão sobre o novo olhar Para a infância trazido pelo autor a partir de “A Menina do Narizinho Arrrebitado” por meio de diversos elementos que vão de recursos literários a ilustrações.

Inicialmente, Sônia apresentou os convidados e falou sobre a trajetória de cada um. Eliana Yunes foi a primeira do quarteto a falar sobre o tema, destacando que a obra de Lobato, apesar de lúdica, é apresentada de forma ‘séria’. Através de um roteiro preparado para a mesa, a profissional analisou a fantasia lobatiana e sua função de ‘denúncia da realidade’, percorrendo também olhares de outros campos de estudo para a obra.

Em seguida, Antonella Catinari observou que a fantasia de Lobato seguiu diversas direções: futuro, presente e passado. Para ela, ao ‘abrir a porteira do Sítio do Picapau Amarelo’, fantasia e realidade transitam da forma mais natural do mundo, maneira esta que o autor escolheu para dialogar e atrair o gosto das crianças pela literatura. “Ele é o que criou realmente uma literatura brasileira, baseada na fantasia e na invenção de personagens, o que é um caráter de inovação”, afirmou a especialista, que chamou o escritor de pai da literatura infanto-juvenil brasileira.

A também professora ressaltou, ainda, a importância de trabalhart com a obra lobatiana na escola, principalmente para motivar a literatura por meio da fantasia dentro da fantasia.

Logo depois, Luciana Sandroni, que integrou o time de roteiristas da última adaptação para a TV da série sobre o “Sítio”, trouxe à mesa sua experiência enquanto leitora de Lobato na infância para falar como escritora sobre a fantasia na obra do autor e em sua própria obta, que foi construída com as referências lobatianas,como ‘imaginar o diferente’.

Na sequência, Pedro Bandeira, que se intitula ‘filho de Lobato’ pela ausência paterna na infância, avaliou que o autor introduziu em sua obra elementos que ele percebeu que faziam parte do universo de ‘sonhar’ das crianças, o que permite criar identificação e prazer pela literatura.

O escritor citou trechos, como o do ‘vidro azul’ para exemplificar a sensação que sente e que Lobato fez sentir por meio da obra, à qual ele se referiu como ‘espelho’ para quem lê.

Por fim, os integrantes da mesa fizeram sua conclusão sobre o bate-papo enquanto interagiam com comentários feitos pelos espectadores, que elogiaram, trouxeram pareceres e olhares sobre a conversa.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=WffPvvLpoMo&list=PLTSOlBY3k3FW3yt4T-EL0t9Y7ajVlutYt&index=3

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Lançamento de Narizinho Arrebitado – Livro 1 por Cleo Monteiro Lobato

A primeira mesa-redonda do último dia do evento “100 Anos de Narizinho” (6/12) marcou o lançamento de ‘Narizinho Arrebitado – Livro 1’, atualização de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’, com adaptação em português e tradução em inglês, feita por Cleo Monteiro Lobato junto à editora Nereide Santa Rosa, da Underline Publishing, e com ilustrações de Rafael Sam.

A bisneta de Lobato lançou oficialmente sua obra em uma conversa com os dois parceiros. Cleo iniciou a live, que foi mediada pela curadora Mari Salmonson, já contando aos espectadores sobre o projeto de nos próximos anos atualizar toda a obra de ‘Reinações de Narizinho’ e em seguida iniciou o bate-papo com Nereide, que parabenizou a diretora da Monteiro Lobato Projetos Culturais pela oportunidade de reflexão trazida pelo livro.

As duas falaram sobre como se conheceram e Nereide, que já publicou um livro sobre Lobato no Brasil, destacou o fato de levar a literatura brasileira para nossa comunidade nos Estados Unidos, país sede da editora, necessidade que ela conta ter percebido nos últimos anos.

A dupla também revelou ao público os detalhes e primeiros passos que tiveram que definir na hora de organizar a publicação, como a separação em capítulo, quantidade de ilustrações, formato e todas as “adaptações ao novo pensamento, aos valores contemporâneos”, como descreveu Santa Rosa, que ressaltou a preocupação de atender ao mesmo tempo aos pais e aos professores.

Logo depois, Cleo trouxe à conversa a necessidade de discussão da questão racial, evidenciando os acontecimentos recentes no mundo e os movimentos em voga no país em que vive, o que acaba refletindo nas ideias de todo o planeta.

As estratégias que foram precisas durante o processo para saber como lidar com o público ‘tradicionalista’, como definiu a bisneta do autor, também foram tema do bate-papo.

Na sequência, Rafael Sam entrou para a mesa e Cleo contou como conheceu o artista. Ele conversou com ela sobre a experiência do trabalho e o processo de criação dos desenhos a partir do que é idealizado em nossas imaginações a partir dos trechos do livro.

Na ocasião, o público pôde conferir esboços do desenvolvimento das artes, como a composição de Narizinho, descrita por Lobato como ‘da cor de jambo’ e recriada usando o Converse All Star High Top vermelho, através do ‘toque de gênio’ do ilustrador, comparações entre ilustrações de trechos de edições do livro original e reproduzidas agora e detalhes das reproduções de cenas e ambientes.

Rafael também analisou sua criação de Emília, que surge mais colorida na atualização, explicando a associação de detalhes modificados à personalidade da boneca na história e passando ao público força, determinação e energia alem de uma felicidade de viver.

Ao mostrar como ficou a Dona Benta do artista, Cleo falou sobre a dificuldade que causou na hora de pensar na reprodução da personagem junto ao parceiro, uma vez que conceito de avó idosa, fazendo tricot, na cadeira de balanço mudou muito mas ao mesmo tempo a vovó mais carismática do ‘Sítio do Picapau Amarelo’ não poderia deixar de lado elementos símbolos do conceito descrito à personagem.

Ao final, Nereide Santa Rosa voltou ao encontro, onde os três, juntos, traçaram um panorama final sobre como foi todo o processo de atualização, as responsabilidades, compromissos e impactos na obra nas atuações dos três profissionais, que com o livro contribuem com a propagação de nossa cultura e valorização da obra de Lobato.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=-0OS-jI-A5Q&list=PLTSOlBY3k3FW3yt4T-EL0t9Y7ajVlutYt&index=2

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100 Anos de Reinações

A última mesa-redonda do dia 5/12 no evento “100 Anos de Narizinho” reuniu Cleo Monteiro Lobato e a curadora Mônica Martins para um bate-papo com oito ilustradores da exposição “A Menina do Narizinho Arrebitado”, mostra idealizada pela Editora MoMa com 20 artistas que recriaram cenas da obra original “A Menina do Narizinho Arrebitado” de Monteiro Lobato.

Mônica começou a conversa relembrando sua experiência com trabalhos que envolveram ilustrações de Lobato e contando como surgiu a atual exposição. A artista ressaltou que percebeu por meio das ilustrações como a obra fica instalada no imaginário das pessoas enquanto criança.

Veruscvhka Guerra foi a primeira ilustradora a entrar para o encontro, se apresentar e exibir sua arte, que reproduziu Narizinho no Reino das Águas Claras. Ela também contou sobre sua carreira e seu primeiro contato com Monteiro Lobato.

Em seguida, Soraya Pamplona se apresentou e descreveu sua trajetória. A artista, que é especializada em aquarela, fez sua ilustração nesta modalidade e falou sobre o processo de trabalho em cima da obra do autor.

Nice Lopes veio logo depois mostrando o trabalho que fez com um trecho de Emília lutando contra o escorpião negro – trecho esse posteriormente retirado da versão final de “Reinações de Narizinho” pelo próprio Lobato. A ilustradora falou sobre sua escolha e justificou a decisão, relembrando também sua experiência com a obra do autor e com a arte.

A próxima convidada a apresentar seu trabalho foi Sandra Ronca, que também recriou uma cena com o escorpião e Narizinho. A artista, que também é escritora, contou sobre sua história e parceria com Mônica Martins e explicou sobre a técnica diagonal utilizada em seu desenho, técnica de composição de grande efeito, usada para chamar o olhar da pessoa e criar um efeito dramático.

Na sequência, Agostinho Ornelas entrou em cena introduzindo o trabalho realizado e contando sobre seu primeiro contato com Lobato. O ilustrador mostrou o primeiro livro de fábulas do autor que sua mãe contava a ele quando criança e contou detalhes sobre os traços de sua criação para a exposição.

Agostinho recriou o perfil de Narizinho com o Príncipe Escamado na ponta do seu nariz em aquarela e tem no seu portfólio quase o livro inteiro ilustrado magistralmente no seu estilo onírico.

Ângela Carneiro foi a próxima artista que apresentou seu desenho e falou sobre sua carreira, analisando o processo e elementos que percorreu para seu trabalho.

Em seguida, Laurent Cardon, francês radicado no Brasil, trouxe à mesa as cenas que recriou: do príncipe e Narizinho na enfermaria e da barata ferida pelo sapo, trechos que também acabaram excluídos da versão final de 1931 por Lobato. Essas ilustrações renderam entre os integrantes uma discussão sobre a relação entre a igreja e Lobato, relação complicada historicamente.

Felipe Campos veio logo depois exibindo sua ilustração. Apaixonado por trabalhos voltados a histórias que “assustam crianças”, o artista falou sobre a experiência de deixar o trabalho que gosta para dar cores alegres ao trabalho realizado para a exposição.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=z0iW8KLCHtY&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=3

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Reinações de Narizinho’ na Escola: como desenvolver projetos literários com este clássico?

Na segunda mesa-redonda do dia 5/12, no evento “100 Anos de Narizinho”, Cleo Monteiro Lobato e a doutora em Educação, Sônia Travassos, mediadora da mesa, receberam os doutores em Educação Vanessa Camasmie e Ilan Brenman e a professora e especialista em Lobato, Renata Codagan para falar sobre o processo percorrido pelos educadores para levarem a obra lobatiana ao universo escolar.

No encontro, Brenman, que também é escritor infanto-juvenil, trouxe o olhar da relação entre Literatura e escola. Ele iniciou falando sobre o centenário de Clarice Lispector, autora, que segundo ele, foi formada por Lobato, como é explícito em seu livro de contos ‘Felicidade Clandestina’.

O profissional também lamentou o cancelamento a Lobato nos últimos tempos, relatando uma série de acontecimentos e ataques ao autor, no passado, que vieram de diversos lados opostos de pensamento e mostram que ele era um “prisioneiro de seu tempo” e refletiu sobre a presença de racismo e outras passagens da época na obra lobatiana, como a caça, concluindo que os trechos não contribuem para tornar ou incentivar ninguém, mas para ilustrar épocas distintas. “A vida vai e volta, não é uma linha reta”, afirmou Brenman, que reconheceu a importância de ensinar às crianças sobre nosso passado.

Em seguida, Vanessa falou sobre a mediação entre obras infantis como ‘Reinações de Narizinho’ e as crianças, por meio de sua experiência em atividades no colégio Pedro II.

A doutora contou sobre como funcionaram as atividades de um projeto de leitura desenvolvido no ano passado, que precisou ser interrompido.  Ela afirmou que foi reconhecido, entre os profissionais, o racismo presente na obra e trouxe à discussão a análise de Antônio Candido sobre literatura e sociedade, concluindo que a leitura de uma obra com trechos racistas não significa o incentivo e a formação do racismo às crianças e nem a desqualificação da obra.

Camasmie revelou que chegou a ser pedido na escola para que o livro ‘Reinações’ fosse queimado, citando uma frase de Stalin sobre queimar livros e contou que a obra serviu para abrir discussão extremamente positiva entre as crianças negras e brancas sobre sofrer racismo e o entendimento do que é viver o racismo.

 

Logo depois, Renata iniciou sua fala afirmando ter ficado emocionada com o relato de Vanessa, principalmente pela ótima experiência que teve quando criança junto à obra de Lobato, lembrando detalhes e vivências. Como arte-educadora, ela contou sobre sua experiência com a obra de Lobato nos espaços culturais por onde atuou, lembrando sobre um episódio em que a evidenciação de termos racistas no livro serviu para provocar e enfatizar que hoje racismo é crime, iniciando uma discussão acerca do tema.

Ao final, os convidados puderam responder perguntas enviadas por espectadores, como Renata, que respondeu sobre um questionamento de como ela se sentia como negra em relação às passagens racistas na obra. A professora disse que foi muito treinada quando pequena pelos seus pais para lidar com o racismo, mas que nem todos têm essa vantagem e avaliou o evento como uma oportunidade para iluminar e trazer ‘futuros desejáveis’ para nossa sociedade.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=_WKmPyQDEfs&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=4

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Dona Benta, Tia Nastácia e seus ilustradores

O segundo dia do evento “100 Anos de Narizinho” teve como primeira mesa-redonda um encontro entre Cleo Monteiro Lobato, a curadora Mari Salmonson e o convidado Magno Silveira, artista responsável por uma das exposições do evento, que reúne em uma linha do tempo ilustrações de capas mostrando a evolução do livro “A Menina Do Narizinho Arrebitado” até se tornar “Reinações de Narizinho”, 11 anos depois.

No bate-papo, Magno trouxe detalhes sobre o recorte de sua pesquisa para a exposição, que além da linha do tempo evolutive, analisou a evolução das personagens Dona Benta e Tia Nastácia.

Ele apresentou imagens de diferentes artistas ao longo do tempo, elencando as características de cada arte e as principais diferenças entre eles, tanto no que diz respeito aos traços, como a concepção das reproduções. O ilustrador destacou que a criação de Jean Villin, em 1929, para ele foi a que mais trouxe elementos que se alinham ao ambiente interiorano do “Sítio do Picapau Amarelo”.

Entre os apontamentos, Magno também ressaltou uma ilustração de Belmonte, de 1929, da história ‘Circo de Escavalinhos’, em que Tia Nastácia surge com roupa de passeio. Já nas ilustraçōes  de J.U. Campos, em 1930, o profissional fala em uma abordagem mais comercial e influência do desenho norte-americano no processo de criação.

Três artes, entre outras, que acabaram chamando a atenção do trio foram uma feita por Belmonte, em 1934, em que surge junto às personagens um gato, elemento que não aparece em nenhum momento na história de Lobato; uma de Rodolpho, de 1939, em que Narizinho é caracterizada praticamente idêntica à Branca de Neve da Disney; e uma de Augustus, em 1947, em que Dona Benta vivida pela atriz Zilka Salaberry na série de TV global parece ter sido inspirada.

Entre os nomes que estão na linha do tempo de Magno está também o argentino Rafael De Lamo, com ilustrações que têm o tom escuro como característica marcante.

Ainda no encontro, Magno mostrou algumas coleções físicas que possui de ilustradores nacionais e internacionais e respondeu perguntas e comentários feitos pelos espectadores.  O artista reforçou que dois dos ilustradores que ilustraram Lobato  eram negros: Belmonte e André Le Blanc, um fato interessante e desconhecido pela maioria das pessoas, atestando como Lobato era realmente um homem à frente do seu tempo.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=tZVZcL85TLo&list=PLTSOlBY3k3FWHVFdscwCQPT2B-c0jm6qK&index=2

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A importância socioeconômica, política e cultural de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e ‘Reinações de Narizinho’

Na mesa-redonda que encerrou o primeiro dia de evento, na sexta-feira (4), a doutora em Educação Sônia Travassos mediou um bate-papo entre Cleo Monteiro Lobato e os escritores e especialistas na na obra lobatiana Marisa Lajolo, Cilza Bignotto e Alexandre de Castro Gomes, que falaram sobre a importância socioeconômica, política e cultural de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ e ‘Reinações de Narizinho’.

No encontro, Castro Gomes iniciou a discussão fazendo um panorama sobre a

literatura infanto-juvenil no Brasil, apontando a relevância e a inovação que Lobato trouxe à área ao trazer ilustrações e conquistar as crianças. “O Lobato não inventou a literatura infantil brasileira, mas ele fez as crianças gostarem”, afirmou o escritor.

Em seguida, Cilza Bignotto comentou sobre as publicações de Lobato antes de ‘A Menina do Narizinho Arrebitado’ até chegar na obra, evidenciando detalhes do livro em sua primeira edição, bem como em publicações da época, o que fez com que a especialista analisasse a intenção do autor de apresentar sua obra para diferentes públicos.

A oscilação da personagem Narizinho e caracterização de outros personagens,

elementos e passagens do livro também foi ponto de análise da escritora, que exibiu e descreveu imagens do livro e de publicações da época, traçando as referências e revelando curiosidades.

Em sua fala, Marisa Lajolo estabeleceu paralelos entre ‘A Menina do Narizinho

Arrebitado’ e as obras sobre o ‘Sítio do Picapau Amarelo’ que se originaram a partir daí e pontuou características do autor, usando trechos e exemplos dos livros.

Ainda na mesa, os convidados responderam perguntas enviadas por espectadores,como qual conselho Lobato daria para os editores diante da atual crise no mercadoeditorial.

Assista: https://www.youtube.com/watch?v=nUJcGECPh2o&t=66s

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